uma andorinha no inverno

..."Andorinha,andorinha,minha andorinha", pediu o príncipe uma vez mais,"fica comigo mais uma noite"... Durante todo o dia seguinte, a andorinha ficou sentada por sobre o ombro do príncipe, contando-lhe histórias do que tinha visto em terras distantes.Falou-lhe dos íbis vermelhos, que permanecem em longas filas nas margens do Nilo e que apanham peixes dourados com os seus bicos; falou-lhe da Esfinge, tão velha como o próprio mundo, que vive no deserto e que tudo sabe; falou-lhe dos mercadores, que caminham vagarosamente junto dos seus camelos e levam nas suas mãos colares de âmbar; falou-lhe do Rei das Montanhas da Lua, que é preto como o ébano e venera um grande cristal, da grande cobra que vive nas palmeiras e que vinte sacerdotes alimentam, com bolos de mel... Por fim chegou a neve e com a neve veio o gelo. As ruas pareciam feitas de prata, de tão lisas e brilhantes que estavam; como punhais de cristal os sincelos enfeitaram os beirais das casas... Até que um dia a andorinha soube que ia morrer. Apenas lhe restavam forças para voar uma vez mais até ao ombro do príncipe. "Adeus querido príncipe!", murmurou, "deixas-me beijar a tua mão?"."Ainda bem que partes finalmente para o Egipto, minha andorinha", disse o príncipe, "ficaste aqui demasiado tempo; mas deves beijar-me os lábios porque eu adoro-te. "Não é para o Egipto que eu vou", respondeu a andorinha,"Vou para a Câmara da Morte. Ou não é a morte a irmã do sono?"...
in “O Príncipe Feliz”, Oscar Wilde

histórico



porque sou mais que uma

vôos e portos de abrigo

memórias

abril 16, 2007


Fui


Olá meus queridos

Obrigada por tudo, por cada comentário, por cada ajuda, por cada, e-mail, sorriso, crítica, pelo feedback.....

Isto não é um adeus, é só para dizer que já não sei lidar mais com a dor que aqui deixei, por isso mudei-me, visitem-me um bigo na testa

Beijos de mil cores

Daniela

fevereiro 15, 2007


Dor perene


Giovanni Gastel-foto.jpg


Quando a dor é aguda
E o medo intenso
O tempo crava-se na alma
Os segundos salivam a eternidade
Cada minuto é chumbo
Peso insustentável de incredulidade
Chega-se aqui
Sofre-se mais
Depois de já não suportar a dor
Há sempre um ser cão
A dar um pontapé a alguém
Que já está esventrado no chão.


Dor insonsa


Erwin Olaf-foto.jpg

Secaste-me a alma
Encheste-me de dor parda
Espetaste-me as agulhas
Lentamente onde mais dói
Até tocarem todas em simultâneo
Lá no nervo da mágoa
Que provoca o choque do torpor
E a paralisia da dor

Dizes-me que estás em agonia
Que nadas em desespero
E te torces de angústia
Que estás muito magoado
E sofres profundas sevícias
Mas ainda assim
A chaga mais profunda
Que na tua pele abriu
Foi ferires-me, logo a mim!
Peço perdão…ou talvez não
Pela lingua viperina e imunda
Mas vai para a senhora que te pariu.

janeiro 03, 2007


Rumos VI - ao meu merlim melfel


foto -Ira Bordo.jpg


Tenho uma concha no coração
um berço vazio na mão
a tua dor percorre-me as veias
a que me infliges respira-me na pele
e brilha-me nos olhos alucinados
perdidos nas tuas teias
dou passinhos de mel
ao encontro do teu encanto de fel
queria tanto encontrar-te
nas brumas sem tino
ser invadida pelo langor
do teu imenso olhar de mimo.

novembro 25, 2006


Valquíria ou nem tanto


yearning 2 - Jan Saudek.jpg


Tira-me o chão
Encosta-me à parede
Engole-me o ouvido
E bebe-me o pescoço
Faz de conta
Que nada é osso
E que é rugido
Grito feroz
Este lancinante gemido
Que sai
Quando entra
Rouca a tua voz.

outubro 20, 2006


Rumos V – ao meu mago verde filigrana


foto-Ira Bordo.jpg


Vento doce mel e seda
Que conta segredos ao meu cabelo
E me obriga a estar de ombros nus no gelo
Por saber que a minha fome e o meu frio não se saciam
Com candeia acesa e comida na mesa
E o meu fogo não se apaga
Com o mais forte vento do norte.

outubro 08, 2006


Era mesmo isto que eu queria dizer


CONSOLO NA PRAIA


Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade

setembro 25, 2006


sem lantejoulas nem rede


foto-Eolo Perfido.jpg

vendeu-se algures
por pouco dinheiro
furou as moedas
pendurou-as ao peito
sentou-se no chão
com uma placa de cartão:
condecorada
invejada
admirada
condenada
caçada
castrada.

setembro 01, 2006


Face of Fall


sem titulo-Jan Saudek.jpg

A única vez que me veio à vontade e à lembrança o desejo de aplicar na minha pele intacta uma tatuagem foi a de um dragão em representação de ti.Desisti, lembrei-me que para manter viva a cumplicidade basta mastigar languidamente as folhas amarelas e olhar os tigres nos olhos até que o sorriso me faça sangrar.

agosto 15, 2006


A caminho do horizonte


David Hamilton.jpg

Apetece-me
Rachar-te a cabeça
A escopo e cinzel
Leva as grades e o anel
Dá-me uma janela acesa
Imensa de liberdade e mar
Inquietação de vida
Formigueiro de crepúsculo
A alma é um motor
O cérebro um músculo
Já não me faz sentido
Dormitar na letargia
Viver na nostalgia
Perder-me a sonhar
Com medo de realizar
Acorda meu amor
Ou deambula
Na tua concha indolor
Porque eu comi as pétalas
E sangrei os espinhos
Vou seguir caminho.




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